
Fiesp questiona na Justiça inclusão da saúde mental na NR-1
Fiesp e a atualização da NR-1 colocaram a saúde mental no centro de um dos debates mais importantes dos últimos anos dentro da Segurança e Saúde no Trabalho (SST).
De um lado, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) defende que as empresas precisam olhar com mais atenção para fatores como estresse excessivo, assédio, pressão psicológica, sobrecarga de trabalho e adoecimento mental relacionado ao trabalho.
Do outro, entidades empresariais, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, afirmam que a norma possui pontos vagos e pode gerar insegurança jurídica e aumento de ações trabalhistas.
Agora, o tema ganhou um novo capítulo: a Fiesp entrou na Justiça Federal pedindo a suspensão parcial da atualização da NR-1.
Sumário do conteúdo
O que mudou na NR-1?
A atualização da NR-1 foi publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego em agosto de 2024, por meio da Portaria nº 1.419/2024.
A principal mudança foi a inclusão dos chamados fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
Na prática, isso significa que as empresas passaram a ter a obrigação de identificar, avaliar e controlar situações que possam afetar a saúde mental dos trabalhadores.
Entre os fatores que podem entrar nessa análise estão:
- excesso de cobrança;
- jornadas exaustivas;
- pressão psicológica;
- metas abusivas;
- assédio moral;
- conflitos organizacionais;
- falta de suporte da liderança;
- sobrecarga mental;
- ambientes organizacionais tóxicos.
A entrada em vigor da nova exigência está prevista para 26 de maio de 2026.
O que a Fiesp pede na Justiça?
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo ingressou com uma ação na Justiça Federal de São Paulo solicitando uma liminar para suspender imediatamente os trechos da NR-1 que tratam dos riscos psicossociais.
O processo tramita na 9ª Vara Federal de São Paulo sob o número:
5014656-74.2026.4.03.6100
Segundo a entidade, os pontos da norma relacionados aos riscos psicossociais seriam excessivamente genéricos e sem critérios técnicos objetivos.
A Fiesp argumenta que:
- a norma não define metodologias obrigatórias;
- não há clareza sobre o que será fiscalizado;
- as empresas não sabem exatamente como comprovar conformidade;
- isso pode gerar aumento de autuações e processos trabalhistas.
A entidade também afirma que o Ministério do Trabalho extrapolou sua competência legal ao regulamentar riscos psicossociais, alegando que o artigo 200 da CLT não cita expressamente esse tema.
Outro ponto levantado é a suposta ausência de uma Análise de Impacto Regulatório (AIR) específica sobre riscos psicossociais.
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O posicionamento do Ministério do Trabalho
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou anteriormente que o prazo dado às empresas já teria sido suficiente para adaptação.
Segundo ele, o adiamento concedido anteriormente deveria ter sido utilizado pelas organizações para:
- realizar diagnósticos;
- mapear riscos;
- estruturar programas internos;
- adequar procedimentos de gestão.
O MTE também defende que os manuais publicados possuem orientações suficientes para auxiliar empresas e profissionais de SST.
Recentemente, o ministério divulgou novos materiais explicativos em formato de perguntas e respostas, além do Manual de Interpretação e Aplicação da NR-1.
Por que essa discussão é tão importante?
A discussão vai muito além de uma disputa jurídica.
Ela revela uma transformação significativa na forma como a Segurança do Trabalho vem sendo tratada no Brasil.
Durante décadas, os programas de SST focaram principalmente em riscos:
- físicos;
- químicos;
- biológicos;
- ergonômicos;
- mecânicos.
Agora, a saúde mental entra definitivamente no centro das discussões corporativas.
E os números ajudam a explicar isso.
Nos últimos anos, houve crescimento expressivo de:
- afastamentos por burnout;
- transtornos de ansiedade;
- depressão relacionada ao trabalho;
- ações trabalhistas envolvendo assédio moral;
- benefícios previdenciários ligados à saúde mental.
A tendência mundial é que os riscos psicossociais passem a fazer parte cada vez mais forte das políticas de prevenção.
O impacto para as empresas
Mesmo com a discussão judicial em andamento, muitas empresas já começaram processos de adequação.
Entre as principais medidas adotadas estão:
- pesquisas de clima organizacional;
- avaliação de carga mental;
- treinamentos de liderança;
- canais de denúncia;
- programas de saúde mental;
- ações de prevenção ao assédio;
- acompanhamento de afastamentos recorrentes;
- fortalecimento do diálogo entre gestores e equipes.
Na prática, a tendência é que o profissional de SST trabalhe cada vez mais integrado com:
- RH;
- medicina do trabalho;
- psicologia organizacional;
- ergonomia;
- liderança operacional.
O que muda para os profissionais de Segurança do Trabalho?
Para técnicos e engenheiros de segurança, a atualização da NR-1 amplia o olhar preventivo dentro das empresas.
O desafio agora não será apenas identificar máquinas sem proteção ou riscos físicos evidentes, mas também compreender fatores organizacionais que possam contribuir para o adoecimento mental.
Isso exige desenvolvimento de novas competências, como:
- análise organizacional;
- investigação de fatores comportamentais;
- interpretação de indicadores psicossociais;
- atuação integrada com RH e SESMT;
- fortalecimento da cultura preventiva.
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação do setor empresarial com possíveis subjetividades na fiscalização.
Esse provavelmente será um dos pontos centrais das discussões judiciais e técnicas nos próximos meses.
O que pode acontecer agora?
A Justiça Federal poderá:
- conceder a liminar suspendendo parcialmente a norma;
- negar o pedido da Fiesp;
- ou ainda determinar ajustes e esclarecimentos adicionais.
Enquanto isso, a NR-1 segue oficialmente com previsão de entrada em vigor em 26 de maio de 2026.
O cenário ainda é de incerteza jurídica, mas uma coisa parece clara: a saúde mental passou a ocupar um espaço definitivo dentro das discussões de Segurança e Saúde no Trabalho.
Conclusão
A ação movida pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo contra a atualização da NR-1 representa um marco importante no debate sobre saúde mental no ambiente corporativo.
De um lado, empresas pedem critérios mais claros e segurança jurídica.
Do outro, o governo reforça a necessidade urgente de prevenção do adoecimento psicológico relacionado ao trabalho.
Independentemente do resultado da ação judicial, o tema dos riscos psicossociais tende a ganhar cada vez mais espaço dentro das empresas, da fiscalização e da atuação dos profissionais de Segurança do Trabalho.




